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Por Cássia Zanini

Julgo ter percebido um tom de indignação no texto da Eline Kullock  sobre o celular e a nossa identidade.

Por décadas nós lutamos tanto, principalmente as mulheres, para não sermos julgadas pelo olhar do vizinho. Quantas vezes o critério para nossos pais nos deixarem ou não fazer algo era o que o vizinho ou o resto da família ia pensar? Olhando de modo mais abrangente, lutamos muito tanto como indivíduos quanto como sociedade, para não termos a vida pautada pelo julgamento preconceituoso e restritivo que o outro/sociedade com seus dogmas nos impunha. E agora, em nome da modernidade, somos taxados em várias categorias dependendo do grau do uso ou não de um aparelho. O que é isso? Parece que estou vendo fantasmas. Antigamente papai, mamãe, os professores, autoridades nos castigavam. Agora o castigo virou domínio público? Todo mundo pode te julgar e castigar, sem te ver, sem dar direito de defesa, se você está fora de padrões impostos por uma tecnologia e pelo seu consumo? Voltamos à China de Mao com execrações públicas em tribunais populares?

Obviamente, quero sentir-me adequada ao momento e ao lugar em que vivo, pois tenho consciência do EU e sei que valorizo estar integrada e cuidar dos meus relacionamentos. Desde muito antes do celular, por educação e por amorosidade, tento responder e atender a todos os que me procuram. Por que não exigir reciprocidade, respeito e educação quanto à minha individualidade e ao meu tempo? Eu tenho o direito de atender meus clientes de coach ou de terapia sem interrupções de ringtones, mesmo que sejam lindinhos e divertidos. Tenho também o direito de jantar com meu marido ou malhar ou tomar banho sem ter que dispersar meu SER, meus pensamentos, percepções e sentimentos, em mil direções enquanto cuido de mim mesma e dos meus amores.
A minha geração foi muito cobrada em casa e nos meios empresariais a ter disciplina, a administrar bem o tempo, a priorizar e separar o que é importante do que é urgente, a planejar estratégias de sucesso para ter resultados. Talvez por este motivo eu chame este modismo que incomoda a todas as gerações de “smsn” – síndrome do meu celular sem noção. Lembro das lições do Stephen Covey, que no século passado (!!!) escreveu Os Sete Hábitos de Pessoas Muito Eficazes. Este livro impactava minha geração quando afirmava que quem é interrompido a todo momento e gasta tempo e energia cuidando do que não é nem importante nem urgente, fica preso (na vida e na carreira) nos detalhes, nas pequenas tarefas, apenas nas atividades que lhes agradam. Os resultados muito comuns e frequentes são: demissões, falências e dependência de outros, inclusive financeira.

Sempre sugiro aos que tenham o hábito de chamar insistentemente quando não posso atender, que deixem um breve recado com o assunto e a motivação do telefonema. Desta forma, todos podemos nos responsabilizar pela nossa comunicação e pelo cuidado com nossos relacionamentos. Quem ligou, já sabe e já pode dizer se o que tem pra falar é urgente, importante, ou nem um nem outro. Quem recebe, tem autonomia e um acordo prévio para priorizar os retornos das ligações, efetuar as ações exigidas pela mensagem recebida e, acima de tudo, tem a responsabilidade de administrar seu tempo, exercendo a sua consciência. Posso apostar que este exercício é uma excelente forma de tratar e desenvolver a própria identidade. Com ou sem celular.

Cassia Zanini é Psicóloga, Executive Coach e Terapeuta de Família. Pertence à geração Baby Boomer e trabalhou por 25 anos na área de Desenvolvimento Humano, em empresas nacionais e multinacionais, no Brasil.

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One Response to “Como a tecnologia influencia (ou não) a nossa própria identidade”

  1. vera disse:

    Perfeita abordagem de um problema crônico, a tecnologia está sufocando essa geração sem noção! Muito bom ler um texto tão bem escrito, a língua portuguesa também está sendo esquecida tanto no escrever como no falar, basta ver a geração da internet, tudo se abrevia, estão criando um novo dialeto: o internetês! Enfim vamos tentar sobreviver ao caos tecnológico!
    Parabéns!

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