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A Revista Veja publicou na semana passada uma crônica muito inteligente, que reflete aquilo que buscamos transmitir aqui sobre o conceito de gerações. Achamos que o título e o texto têm tudo a ver com o nosso blog, portanto aproveitem!

Boa leitura!

Contemporâneos

Por Ivan Angelo

Uma frase, lida há muito tempo, já não sei onde, instalou no meu espírito questões intrigantes, especulações. Imagino que ela poderia ser a conclusão ou a abertura de um artigo, ou ambas. Eis a frase e o autor:

“Por que tive de nascer com tais contemporâneos?” (George Bernard Shaw, dramaturgo e pensador irlandês, 1856- 1950.).

Conheço a frase por citação, fora de contexto, somente em tradução, não sei de quem ele falava. Talvez de tiranos como Stalin e Hitler, mas o homem viveu 94 anos e nem o ano da frase eu sei, qual a safra. Todas as safras dele são boas. Shaw teve contemporâneos brilhantes como Bertrand Russell, James Joyce, Franz Kafka, Paul Valéry, Sigmund Freud, Friederich Nietzsche. A frase pode ser de um personagem de suas peças. Pode ser que se referisse a políticos, que poluem qualquer época. No fundo, não interessa a quem ele se referia; sabê-lo diminuiria o poder inquietante da frase, fecharia o seu sentido. Gosto dela assim, aberta, errante, sem endereço.

No ano em que ele morreu, 1950, o dramaturgo francês Henry de Montherlant botou esta fala na peça Malatesta: “Se eu pudesse mudar um pouco de contemporâneos”. É um lamento, mas a ideia é a mesma.

Vamos passear com essa palavra.

Quem são os nossos contemporâneos, se cada um de nós, em cada região, cada país, vive em um mundo cultural, tecnológico e político diferente? Contemporâneo não é só o que há de mais avançado, a vanguarda, mas também o que estagnou há séculos, como o sertão.

Há contemporâneos “melhores” em alguma época? É a história escrita que torna grandes os homens ou eles são mesmo enormes?

Em todas as épocas existem horrores e horrorosos. Períodos apresentados para uns como plenos de feitos heroicos, como os das Cruzadas, são um mar de atrocidades. A conquista do novo mundo pelos desbravadores dos mares e das matas foi um absurdo de crueldades e ambições e crimes contra a humanidade. Seriam os heróis de então melhores contemporâneos? E hoje? George W. Bush, por exemplo. Merecíamos o Bush?

Contemporâneo é usado como critério de valor. Chamar alguma coisa de contemporânea soa sempre como elogio. Em artes visuais, é o argumento definitivo, virou atributo de qualidade. Mas será? Van Gogh não era “contemporâneo” quando perambulava pela Provença, gênio desconhecido. “Contemporâneo” era algum pintor de sucesso nas galerias oficiais, desconhecido hoje; Van Gogh não vendeu um único quadro.

A palavra engana, como um jogador de futebol a palavra engana. O dicionário diz que contemporâneo é o que é do mesmo tempo, da mesma época; ou também o que é da época atual, do tempo atual. Eis a armadilha, quando só colamos o adjetivo nas grandes e belas coisas atuais.

Contemporâneos são, sim, o trabalho de pesquisa com as células-tronco, as maravilhas da tecnologia, as conquistas esportivas, mas são também o crime violento por motivo fútil, a popularização das drogas, o cinismo político, a corrupção institucionalizada. Contemporâneo é poluir, consumir, agredir, levar vantagem, passar por cima, não ter ideologia.

O hábito de as pessoas dizerem “No meu tempo” não será um pouco isso, recusa do tempo atual? Como se elas dissessem: “Este não é o meu tempo, é o seu”. “No meu tempo não era assim. Não sou seu contemporâneo.”

Já as crianças estão bem satisfeitas com seus amigos de escola, de bagunça, de jogos, de tapas, de feitos, e também com seus ídolos e heróis. Pelo menos esses, meu caro gênio irlandês, estão bem satisfeitos com seus contemporâneos.

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One Response to “O hábito de dizer “No meu tempo” não será uma recusa do tempo atual?”

  1. Sou da chamada “raspa do tacho da geração Y” (1984).
    As vezes me questiono se nasci na época certa.

    Fico triste principalmente com a falta de vontade de aprender e, do desinteresse por política e economia, da minha geração.
    Parabens pelo texto.

    Abraços.

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