
Por Valéria Lima
Fiz minha primeira viagem internacional, sozinha, aos 23 anos, sem lenço, mas com documentos, ao contrário da música de Caetano.
Meus pais tomaram um susto quando eu falei que ia para os EUA, aproveitando a hospitalidade de uma amiga que já morava lá. “Mas como? Com que dinheiro? Por quanto tempo? Fazer o quê?”. Eles me encheram de perguntas e com razão.
Por que, afinal, eu queria sair do Brasil? Não estava bom? Eu tinha emprego, casa, comida e roupa lavada! Contudo, apesar daquilo parecer muito louco pra eles, tive total apoio.
E é verdade, não estava bom pra mim. Eu queria me desafiar e talvez nem soubesse disso. Mas me senti super seduzida a ir. Assim como eu, muita gente da minha idade saiu do país nas mesmas condições, naquela época. Sem dinheiro, sem perspectivas, às vezes com algum contato e uma promessa de trabalho. Pra gente, que tinha acabado de se formar como jornalista, era cruel sair do Brasil pra limpar banheiro e panela no exterior. Mas acho que isso também fazia parte do desafio. Era o tempero. Um pouco picante, é verdade.
O que eu me pergunto é: essa atitude tão própria do jovem, especialmente os de família sem recursos pra mandar seus filhos pro exterior, como a minha, vai nos proporcionar uma mentalidade diferente da dos nossos pais? E vai nos fazer impulsionar nossos filhos a fazer o mesmo, mostrando pra eles que o mundo é grande e bonito? Vamos incentivar nossos filhos, mais do que nossos pais, a voar por aí, rompendo fronteiras?
Eu acho que sim. Hoje, morando novamente no exterior (mais precisamente na França), vejo muitos jovens se aventurando, literalmente. Tem muita gente que vem estudar, alguns com a ajuda dos pais, outros não. Tem também muitos casos de au pair e tudo o mais. Mas, se não for só uma sensação minha, e abro aqui o debate, os jovens ficaram mais destemidos em relação a viver fora sem recursos? Será que, daqui em diante, vão viajar mais por sua conta e risco do que seus pais? Seria apenas uma transgressão ou uma tendência?
É claro que viajar hoje é muito mais barato do que antes. Isso ajuda a “movimentar os desejos”. Mas acredito que a minha geração (tenho 32 anos) – e estou falando da geração da mesma classe social que eu, que pagou sua própria faculdade e começou a trabalhar aos 15 pra se bancar – viajou mais que seus pais. E provavelmente viajará menos que seus filhos. Minha filha, aos oito anos, viajou sozinha para os EUA para visitar o pai. Foi difícil, houve um longo trabalho psicológico em casa, mas ela enfrentou os medos e foi. Começou cedo! Ela já voltou com a noção de como as pessoas vivem diferente em um outro país. E ao mesmo tempo como somos todos muito iguais.
Para desafiar o mundo ou não, para desafiar a si mesmo ou não, o fato é que viajar abre portas, abre a cabeça, abre possibilidades. Eu certamente incentivarei minha filha a voar mais do que eu. O máximo que ela puder. Com as próprias economias, como eu, por que não? Hoje ela já começa a falar francês, depois de dois meses na França. Por vontade dela, mas por muito incentivo meu em mostrar como é importante aprender outro idioma, se dedicar à escola, fazer amigos franceses para praticar o idioma. Se nós estamos aqui, vamos viver isso plenamente. E ela me demonstra todo dia, com muitos sorrisos, que está sendo bom. Ela está crescendo. E eu também.





Parabéns pelo texto, Valéria. Muito interessante a reflexão. Acho que cada vez mais as pessoas estão dispostas a viajar e a enfrentar novas realidades, com ou sem recursos. Quando fui pedir a opinião de um professor sobre ter que me ausentar 20 dias da escola para ir com meus pais à China, em minha primeira viagem internacional, aos 14 anos, ouvi como resposta: Vá. Em um dia em outro país, você aprenderá muito mais do que sentada nesta carteira por muitos anos. Sábio professor. Hoje, com 26 anos, tive a oportunidade de estar em muitos países e acho maravilhoso que viajar tenha se tornado mais fácil (pelas facilidades no pagamento e pelo desenvolvimento do transporte aéreo) , pois as novas gerações terão ainda mais contato com culturas e pessoas diferentes. Por outro lado, penso que não basta incentivar os filhos a viajarem muito, mas fundamental é prepará-los para serem bons viajantes, para realmente conhecerem outras culturas. Em minhas últimas viagens ao exterior, percebi dezenas de grupos de adolescentes brasileiros na faixa dos 15 anos que viajam financiados pelos pais, mas que pouco ou nada aprendem nas viagens além de consumir e consumir. Eles não visitam museus, pontos interessantes, não interagem com outras pessoas que não sejam brasileiras, conversam o dia todo somente com os demais membros do grupo, comem no Mac Donald´s e passam toda a temporada no exterior dentro de shoppings, gastando os dólares de seus pais com roupas e objetos “da moda”, dólares estes que seus pais pensam investir numa educação melhor e mais global para seus filhos. Voltam para casa com i-pods, i-phones, tênis Nike, relógios… malas lotadas, mas bagagem cultural vazia. Penso que viajar seja válido apenas quando se desenvolve o olhar de viajante, atento ao novo e ao diferente.
Obrigada, Karen. Concordo que preparar os filhos é fundamental para que obtenham o maximo dessa oportunidade que é viajar pelo mundo, e que é privilegio de poucos. Eu costumo dizer pra minha filha que ela é privilegiada em poder conhecer varias culturas de perto. E papel dos pais educar seus filhos dessa forma, assim como dar disciplina antes da escola, assim como nao relegar à outros cuidadores, tipo baba ou avos, os melhores momentos da vida de seus filhos. Abraços!
Eu sou completamente apologista de que os nossos filhos saiam para viajar por esse mundo, conheçam novas culturas, outras gentes. Hoje até têm mais facilidades, programas que possibilitam estudar no estrangeiro, e outros programas que a preços módicos andam de país em país. E como eles estão mais destemidos e cheios de curiosidade, junta-se a “fome com a vontade de comer”.
Aquela frase que li em algum lugar: “Há duas maneiras de aprender, viajar e ler”, que sem esgotar as maneiras de aprender, pelo menos acentuam dois modos muito importantes.
Eu farei tudo o que puder para, muito em breve, os meus filhos estejam a estudar no estrangeiro.
Um abraço!
Joseph, me perdoe de nao ter respondido antes. Estou vendo esses comentarios so agora! Mas é isso ai, a geraçao que vem ai tem muita sede de voar. E com incentivo de pais, como vc, vao alçar belos voos mundo afora.
Olá Valéria,
Parabéns ao texto, é maravilhoso!
Sou estudante de comércio exterior, 3o ano. E esta janela que se abriu para o exterior é fantástica, o meu maior sonho, e o que eu mais percorro, sem dúvida nenhuma é colocar uma mochila nas costas, e viajar por esse mundo a fora, tendo em vista toda a relação que possuí com a minha área de atuação, comércio internacional.
Ano passado estava decidido a trancar a faculdade e me jogar mundo a fora, mesmo não dispondo de muitos recursos, mas realmente queria dar a cara pra bater, só de imaginar esta sensação de poder abraçar outras culturas, línguas e idéias, me encanta e faz o coração querer saltar da boca!
Parabéns pela inciativa, concordo que temos que preparar as gerações futuras para este “mundão”.
Forte abraço.
Oi, Caio, antes tarde do que nunca. Nao deixe essa sua vontade de sair por ai se apagar. Vale a pena dar a cara pra bater, como vc mesmo diz. Eu fiz e recomendo. Nao que tudo seja facil quando decidimos viver essa experiencia, mesmo com dinheiro, mesmo estando preparado. Ao contrario. Mas é exatamente essa situação que nos faz crescer. Sao todas as dificuldades que fazem a aventura valer a pena. Abraços, e desculpe pela demora em responder, so vi os comentarios agora!
Olá Valéria,
Pois é, antes tarde do que nunca! rs
Abraços!
Olá, Parabéns pelas conquistas e muito sucesso!!!
Um grande abraço.
Oi Ilson, obrigada. Acho que nos conhecemos, nao? Abraços!