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Por Tatiana Kielberman

Cantor, compositor e cineasta, Vinicius Calderoni nasceu em São Paulo em 1985. Tornou-se compositor desde os primeiros anos da adolescência e lançou seu primeiro disco, Tranchã, em 2007, produzido em parceria com Ulisses Rocha, o qual considera seu grande professor.

Formado em Cinema, dirigiu dois curtas-metragens, Entre Outros (2005) e Cinzas (2006). Seu mais novo projeto lançado na mídia se chama Os doze clipes de Tranchã, que inclui a confecção de um videoclipe para cada canção do repertório de seu álbum de estréia.

Em entrevista exclusiva ao Foco em Gerações, Vinicius fala sobre sua trajetória, o desafio de fazer música em meio a tanta diversidade de estilos e dá sua visão de jovem sobre como as mudanças dos últimos anos impactam no âmbito musical.

O que impulsionou o seu interesse por música e como você se sente sendo artista desde tão cedo?

Desde criança, das minhas lembranças mais remotas, tenho esse desejo de ser artista. Já fazia alguns pequenos filmes para o meu pai, era fascinado por cinema. Depois, passei a adorar teatro e música. Sempre tive também a influência de um tio meu, que é compositor, David Calderoni, e de um primo violonista, o Ricardo Calderoni. Eu só comecei a compor canções e a ter meu trabalho mais conhecido quando tinha 15, 16 anos. Tive mestres extraordinários, como o Pedro Morão, um professor de música e, sobretudo, o Ulisses Rocha, que foi uma espécie de catalisador, transformando um menino que gostava de arte em um artista.

Você começou a gravar o seu último trabalho, “Tranchã”, quando tinha 18 anos, resultando em uma mistura de diferentes gêneros de música. Como foi o processo de construção dessa obra?

Eu tinha vontade de aprender mais, ter mais contato com o pessoal da música, porque eu já compunha, mas não possuía muito parâmetro. Por meio do Ricardo, comecei a trabalhar com o Ulisses, um grande músico e violonista, e tive vontade de fazer um CD Demo. Alguns amigos meus haviam gravado músicas e colocado na internet, aí pensei: “Tenho algumas músicas, talvez seja hora de gravar de maneira mais adequada.”

E o que você aprendeu nesse momento?

Eu entendi que, mesmo que um artista não se sinta completamente pronto, é importante que lance um disco, para poder se nortear artisticamente. As suas músicas terão outro peso quando precisar se apresentar e lidar com elas profissionalmente. Precisei aprender muito no estúdio, me tornei produtor e fui achando um caminho, uma sonoridade que se relacionasse com o que eu gostava. Essa é uma característica da nossa geração, porque a gente ouve músicas de tantas épocas e tem acesso a tanta informação cultural e musical, que as composições acabam saindo com características hibridas. Eu queria que o meu trabalho contemplasse essa variedade, e hoje olho com bastante orgulho para o “Tranchã”.

Acompanhamos atualmente uma grande mudança no perfil do jovem, influenciado pelas tecnologias, por uma educação mais liberal, pela velocidade com que as coisas mudam. Em sua opinião, o jovem de hoje exige também um estilo de música mais diversificado, que expresse de maneira mais fiel sua personalidade?

Sim. Acho isso maravilhoso. Acabei de fazer um show de videoclipes que preza esse formato hibrido, misturando cinema, teatro e música ao vivo. É uma tentativa de fazer com que o espectador assista ao show e não consiga dizer exatamente o que está vendo, já que não é uma coisa só. Essa é uma tendência que está muito presente no espírito do nosso tempo e o público se identifica com essa linguagem. O acesso à informação, a velocidade com que ela circula, e também a quantidade deixam as pessoas muito antenadas e exigentes. O público jovem quer ser surpreendido.

Qual você acredita ser o grande desafio do cantor atual para despertar o interesse do jovem frente a infinitos estilos musicais que existem?

Vivemos um tempo em que é muito mais fácil gravar um disco. Você pode gravar em casa, com a máxima qualidade, tem a internet, que faz com que o espaço seja mais coletivo e, consequentemente, mais democrático. Essa é a grande vantagem, existe uma enorme multiplicidade, mas o trabalho é árduo. Você precisa ter talento, força, persistência, tenacidade e, ao mesmo tempo, idéias inovadoras. O projeto dos videoclipes tem um pouco esse intuito de criar uma visibilidade maior, entre outras coisas. É um enorme desafio esse de conseguir ter um discurso marcante entre tantas vozes e tanta variedade. Além disso, hoje em dia o público tem menos paciência, por causa do excesso de informações. Com o Twitter, o Youtube, as pessoas estão acostumadas a receber mensagens curtas. Em 140 caracteres você não pode dizer muita coisa, então precisa capturar a atenção das pessoas de um jeito mais rápido.

Durante anos, a juventude de diversas gerações foi influenciada por ídolos musicais, bandas que marcavam uma época. Como você enxerga isso hoje, visto que existem tantos artistas. Acredita que ainda existem ídolos?

Acho que encontrar alguém com quem a gente se identifique e uma canção que exprima o que gostaríamos de dizer na nossa vida, isso sempre vai existir, é algo de que o ser humano precisa. Hoje, há uma grande quantidade de artistas, que têm mais caminhos para chegar até os ouvidos do público. O que talvez aconteça é que hoje os ídolos mudam mais rapidamente. Porém, continuo acreditando que quem tem um trabalho consistente e conquista o público dessa forma, pode permanecer em foco por uma vida inteira. A questão é como você conquista o seu público. Eu acredito em uma conquista lenta e gradual, contínua. Um artista como o Lenine, que passou anos consolidando o seu trabalho, hoje em dia tem um público sólido e cativo. Enquanto fizer música, vai ter pessoas dispostas a ouvir, a ir aos shows. Eu o considero um ídolo, uma enorme referência, porque tem proximidade com o que a gente faz. O ídolo depende muito do nicho que você aborda. Há os imortais, milhares deles, como Caetano, Gil, Milton Nascimento, poderia ficar horas só citando nomes.

Como surgiu o nome “Tranchã”? Qual você acha que é o impacto das gírias no cotidiano dos jovens?

Minha mãe falava muito essa palavra quando eu era criança. Mais tarde, quando estava terminando de gravar o disco, fui ouvir de novo e descobrir o significado na música do Chico Buarque chamada “Cantando no toró”, que dizia que todo artista tem que estar “tranchã”. Fui achar dois significados, o primeiro é de uma coisa bacana, legal, o outro é algo categórico, definitivo, que chega pra resolver. Esses dois significados em conjunto, aliados à lembrança da minha mãe e ao fato das pessoas não conhecerem a palavra pôde gerar um nome bacana para o disco.

As gírias são um dos componentes mais ricos do universo da língua, às vezes até sinto por não estar mais no meio dos jovens. Acho que a função do compositor é capturar um pouco do que se está falando nas ruas e trazer para o universo da canção. A gíria tem um poder, uma despretensão, um bom-humor e uma riqueza verbal muito peculiares ao universo do jovem.

O que mudou na música de hoje em relação à música que seus pais ouviam nos tempos de juventude?

Falando de MPB, que é o universo com que eu tenho mais familiaridade, penso que continuamos tendo um enorme respeito pela tradição da música brasileira do tempo dos nossos pais. São cantores e compositores maravilhosos que têm um trabalho eterno, são uma referência contínua. A questão é que a distância entre querer e poder ouvir uma música hoje é de um clique. Atualmente se pode baixar tudo na internet, não há nada que você não possa ouvir. Tanta informação faz com que as pessoas fiquem mais abertas e menos preocupadas a compor um único estilo de canção. Existe uma variação, uma vontade de percorrer vários gêneros, que é natural. Eu, por exemplo, posso escutar Michael Jackson no meu carro, depois tirar o disco e colocar Ravel, em seguida Caetano, uma banda americana e assim por diante. São cantores que eu gosto e não posso dizer que minha música está mais perto de um do que de outro.

Qual seria a sua sugestão para aproximar os interesses das diferentes gerações, não só em termos de música, mas de cultura em geral?

Muitas coisas me vêm à cabeça. As pessoas precisam de alternativas, de opções de qualidade e que sejam acessíveis para todas as idades. A internet já é uma resposta, mas precisamos ir além. Quanto mais iniciativas forem dando certo, melhor para nós artistas e também para a população.

Como você acredita que ficará a questão dos direitos autorais perante a nova postura dos jovens de baixar músicas, sem pagar por elas?

Exceto aqueles artistas que vendem milhões de discos, o artista nunca ganhou realmente muito dinheiro com isso. Eles sempre ganharam mais com os shows. Hoje, as pessoas compram menos discos. Ter as músicas para baixar gratuitamente é uma tendência que não pode ser negada. Ainda temos dúvidas sobre o que vai acontecer, mas uma certeza é que os formatos vão se alterando. Costumo dizer que liberdade é conhecer as coisas para poder lidar com elas, isso é ser livre.

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