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Por Carlos Nepomuceno

O problema básico da humanidade sempre foi repassar o conhecimento da geração atual e passada para as futuras.

Cada pessoa que nasce precisa chegar ao mundo e receber a “óstia do conhecimento” para ir daqui em diante e não voltarmos para trás.

Ou seja, a humanidade é dependente da forma que essa passagem é feita para sobreviver e resolver os problemas que cada vez mais gente na terra provocam.
Começamos com a memória, passamos ao papel (e adjacências) e depois para o suporte digital.

Cada uma dessa passagens mudou a maneira de produzir e receber conhecimento.

Fez com que nossos cérebros se adaptassem a esse suporte.

Assim, a tecnologia cognitiva é aparentemente neutra por fora, mas modeladora por dentro.

Essas passagens nos obrigam a mudar o jeito que organizamos internamente esse ato de conhecer e produzir conhecimento, marcando Eras distintas da Civilização.

Tudo começa com uma tecnologia, que molda nosso cérebro que, por sua vez, a partir desse novo molde, molda a sociedade.
(Pela primeira vez, li sobre o termo “Filosofia da Tecnologia”, que estuda como pensamos sobre elas. Isso é importante, pois vai nos dar a possibilidade de entender tudo isso melhor.)

Tivemos, portanto, três grandes Eras Cognitivas, nas quais nossos cérebros foram radicalmente mudados:

- A oral, com suporte na memória;
- A escrita, com suporte em papel e adjacências;
- A digital, com suporte no computador.

Cada passagem, guarda características em comum:
- Explosão informacional;
- Aumento de velocidade do fluxo de informação;
- Mais facilidade de acesso ao conhecimento acumulado.

A meu ver essas passagens se tornam maduras, em função do aumento da população que cria a cama, pela qual a nova Era vai deitar.

E, quando vêm, gera consequências profundas em nossos cérebros.

E tem particularidades específicas, que temos que estudar, pois são elas que criam as novidades pelas quais iremos moldar a nova sociedade.

A chegada da Era Digital, numa grande rede de computadores conectados, nos traz de novo que as outras Eras não permitiram, entre outros:

- A interação muito para muitos a distância;
Ex: chats, comunidades do Orkut, listas de dsicussão, etc;
- O registro destas interações, disponível a todos;
Ex: texto do que acontece nas interações que ficam disponíveis;
- A alteração de registros de forma volátil a distância;
Ex: Wikipedia;
- A complementação do registro no mesmo ambiente;
Ex: comentários de um usuário em um post em determinado blog;
- E o registro da interação entre o usuário e a informação.
Ex: pode-se se saber em uma revista on-line, quantos, como e quem acessou cada uma das páginas.

Esse conjunto de novas possibilidades de receber e produzir conhecimento é o que está permitindo a revolução da Era Digital e não a tecnologia, que é apenas a motivadora da passagem, uma ponte entre duas cidades que não se falavam.

Isso vai implicar na mudança geral da sociedade.

Ou seja, como lidamos com o conhecimento do jeito “A” para o “B”.

Uma civilização que vai também do “A” para o “B”.

Que dizes?

*Carlos Nepomuceno é professor, pesquisador e co-autor do livro Conhecimento em Rede (Editora Campus). Esse texto foi retirado de seu blog Nepôsts (http://nepo.com.br/)

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2 Responses to “As três eras cognitivas”

  1. Carlos, seu texto me fez meditar numa coisa nova agora. Na década de 80, lembro-se de ter assistido no Fantástico uma matéria futurista que demonstrava que o ser humano deveria evoluir fisicamente desenvolvendo cabeças maiores, com maior capacidade de armazenamento e raciocínio. Após ler seu texto, se acreditasse em ficção científica, acho que deveria acontecer exatamente o inverso. O alto volume de informações digitais que nos envolvem e nos alcançam diariamente, mesmo sem querer, nos faz ter acesso a muitas coisas novas ou velhas, mas que seletivamente não são armazenadas no cérebro em sua totalidade. Assim lemos e aprendemos muito, mas armazenamos pouco. Claro, pois sabemos que não há razão para memorizar coisas que estão acessíveis quantas vezes forem necessárias em apenas um clique e numa fração de segundos.

    Não estaríamos condicionando nossa mente em confiar na rapidez de se obter informação da Era digital, utilizando assim mais o HD do lap top do que o nosso próprio cérebro? Será que existe uma tendência de usarmos a massa cinzenta mais para raciocinar e criar do que para armazenar, como foi na Era oral?

    Grande abraço!

    • Adriano,

      sim, vamos ter que mudar.

      Se temos calculadora, usamos menos essa parte.
      Somo preguiçosos, tudo que pode ser feito mais fácil, será.
      Gastamos energia para o que não dá para fazer com máquinas.

      Por isso, a ideia de que a escola não pode mais perguntar “Quem descobriu o Brasil”, pois o Google já sabe. Se ele sabe, nós sabemos também.

      Somos mutantes e isso deve nos fazer pensar bastante para onde estamos indo e o que precisa ser ajustado…

      abraços,

      Nepô.

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