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Por Milena Castino

Teoricamente, a geração X vai até 1979 e a geração Y começa em 1980, o que me faz pertencer à geração Y, já que acabei de completar trinta anos.

O problema é que não me sinto à vontade sendo rotulada apenas de Geração Y. Talvez você, que também tenha nascido em 1980, concorde comigo. Não consigo me comparar a alguém com menos de 25 anos, longe de qualquer preconceito. Apenas acredito que a geração Y abrigue dois tipos de jovens, os que nasceram em 1980 e 1981 e os que vieram depois.

Eu sei, pode parecer estranho, mas cinco anos nessa geração fazem muita diferença. Crianças vivenciam experiências de modos diferentes, um ano a mais na infância é muita coisa. E numa época com tantos avanços tecnológicos e constantes mudanças, ser cinco anos mais velho nos distancia muito.

Lembro, por exemplo, de ter tido meu primeiro contato com um computador aos 14 anos. Eu já era adolescente, minha visão era outra, minhas intenções eram outras. Quem nasceu em 1985 tinha apenas nove anos quando eu usei um computador pela primeira vez e a assimilação do novo meio aconteceu de uma maneira diferente.

Quando a tecnologia desponta na frente de uma criança de dez anos, o cérebro assimila a novidade como corriqueira, mundana, como apenas mais uma novidade entre tantas as coisas que se aprende na infância. Já um pré-adolescente ou adolescente assimila uma inovação tecnológica como algo completamente diferente, como uma mudança forçada.

E é por isso que acredito que os jovens que nasceram em 1980 e 1981 tiveram outro tipo de experiência crescendo dentro da geração Y. Fomos forçados a essa novidade, enquanto os mais novos já cresceram aceitando os primeiros avanços tecnológicos como fatos; a mudança, para eles, era iminente e constante.

A primeira vez que vi um CD na vida foi com doze anos. Acredito que muitos jovens da geração Y já tenham crescido longe das fitas cassetes, dos discos de vinil. Talvez nunca tenham tido um pager ou um celular Gradiente, nem nunca tenham acessado um computador em MS DOS ou tentado entender que diabos era esse treco de internet.

A coisa já chegou um pouco mais pronta para os jovens que nasceram depois da gente.

O começo da geração Y teve que se adaptar de um dia para o outro e eu vejo uma característica um pouco diferente nos jovens de 28, 29 e 30 anos: a capacidade de arriscar. Parece que o fato de termos sido praticamente “obrigados” a lidar com mudanças de uma hora para outra, nos fez extremamente adaptáveis. Entre entender o que era Mandic e pintar a cara para pedir o impeachment do Collor, aprendemos que a mudança só é possível através dos riscos.

Sim, nós temos 30 e somos sim parte da Geração Y. Mas também somos a raspa do tacho da X, crescemos ainda dentro da ditadura militar, experimentamos diversos planos econômicos, aprendemos a guardar dinheiro debaixo do colchão. Somos aqueles primeiros, cobaias da inovação dos anos oitenta, os que orgulhosamente testaram um pogobol. Somos a Geração da intersecção, a Geração perdida. Somos a Geração Coca-Cola.

* Milena Castino é publicitária e contadora de histórias. Trabalhou na Neogama, no marketing da Iódice e liderou projetos de marketing para a Associação Brasileira de Estilistas. Nas costas leva dezenas de semanas de moda em Paris e São Paulo, além de uma mochila repleta de sonhos. Mora na Inglaterra, depois de ter cruzado o Atlântico por amor. É apaixonada por palavras, Clarice Lispector, Almodóvar e pela boa e velha propaganda brasileira. Blog: http://sambadegringo.wordpress.com Twitter: @micastino

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4 Responses to “A geração perdida”

  1. Leticia disse:

    Gostei muito do texto, mas é engraçado como me identifiquei com várias coisas vivenciadas por você na infância e eu estou BEM distante dos 30. Ver a internet como algo do outro mundo, escutar fitas cassete e vinil, ter um celular. Na minha escola eu quase não tinha aulas de informática e na minha casa um único telefone com fio e uma extensão bastavam para se comunicar com quem fosse preciso. Mas enfim, acho que todas as gerações nascem com resquícios das anteriores, e talvez seja importante prestarmos atenção com os resquícios que deixaremos para a próxima geração. Parabéns pela reflexão! Também não acho que seja assim tão fácil carregar a bandeira da geração Y.

  2. Ana Carolina de Queirozs disse:

    Olá,

    Tenho um irmão de 33 e uma irmã de 31 anos, sou a caçula com 24 anos. É engraçado pensar que passei por muitas coisas que eles viveram, os brinquedos famosos na década de 80 eram praticamente os mesmos, adorava a barbie rock star da minha irmã e o forte apache do meu irmão.
    Hoje analiso que muitas vezes não me enquadro na geração y, muitas coisas que foram citadas concordo, porem existe um fator chave: classe social.
    Mesmo com o avanço tecnológico, fui ter acesso ao computador com 10 anos, internet com 14 e mesmo assim só usava o ICQ do meu irmão.
    Até hoje podemos ver muita tecnologia aparecendo no mercado, porem nem sempre todos tem esse acesso imediato.
    Por outro lado concordo que existe muita diferença entre um grupo de jovens com 10 anos de distancia.
    Minha sobrinha hoje com 15 anos (uma diferença de 10 anos), não viveu muita coisa que eu passei na minha infância, muitos desenhos, brinquedos, grupos musicais que ela nem faz ideia que existiu.
    Podemos avaliar que eu com 8 anos de diferença dos meus irmãos acabei acompanhando muita coisa que eles viveram porem minha sobrinha, com 10 anos de diferença não tem as mesmas experiências que a minha.
    O que posso concluir é que cada vez mais o mundo muda rapidamente e infelizmente as gerações vão ficando cada vez mais distantes uma das outras

  3. Oi gente, obrigada pelos comentários. Bom estar aqui!
    Só pra esclarecer um pouco, eu não quis dizer que quem tem 25 anos ou menos não desfrutou das mesmas iguarias que os mais velhos, apenas acho que a assimilação, exatamente pelo fato do mundo mudar tão rapidamente, é completamente diferente entre um adolescente e uma criança. É claro que vocês também tiveram acesso aos computadores e brinquedos dos anos 80, mas a interpretação de vocês foi diferente, afinal de contas, tudo não se passava de novidade, vocês eram crianças. Como a Ana Carolina diz, começou a usar o computador com 10 anos, enquanto a maioria que tem 30 já era adolescente. É apenas uma questão de contato, interpretação e assimilação das mudanças do mundo! E, claro, classe social faz toda a diferença, tem criança que até hoje nunca usou um computador. E infelizmente essa distância sempre vai existir!
    Beijos e obrigada por comentarem! ;)

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