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Por Tatiana Kielberman

Os jovens de hoje passam por experiências mais voltadas para o virtual do que para o real. É essa a percepção que rege o trabalho de Diana Beatriz Oliveira, advogada e professora de contação de histórias.

Diana praticou o Direito por 13 anos e em 2001 se apaixonou pelo universo das histórias, após assistir a uma peça com apresentação de Regina Machado, grande pioneira na área.

Ela ministra atualmente um curso de formação de novos contadores de histórias, na Livraria da Vila em São Paulo, além de dar aulas em cursos avançados de pesquisa e técnica de narrativas.

Ao Foco em Gerações, Diana fala sobre a relação do jovem com os livros, sua forma de comunicação, a falta de contato real com o outro e a necessidade de se contarem histórias, como forma de transmitir valores, num mundo cada vez mais voltado ao âmbito virtual.

Como você entrou para o universo da contação de histórias? Por que isso te atraiu?
O universo das histórias já me atraia desde pequena. Na minha casa, era muito comum que faltasse luz em noites de tempestade e essas eram as noites de que eu mais gostava, já que a televisão ficava desligada e minha família tinha oportunidade de conversar. Além disso, estudei em colégio católico e já adorava ler parábolas da bíblia, pois achava inteligente transmitir um conhecimento sério por meio de uma história mais branda. Mas a entrada para o universo da contação de histórias aconteceu bem mais tarde, já adulta e atuando em Direito, quando assisti à apresentação de uma profissional da área no teatro e soube da profissão. A partir daí, me interessei e fui em frente.

Por que é importante contar histórias na sociedade de hoje?
Acho essencial essa atividade na sociedade de hoje e de qualquer outro tempo, já que nas histórias passamos muito mais do que o simples conhecimento didático da sala de aula, por exemplo. Ao contar uma história, transmitimos valores, sonhos e imagens, além de despertar a fantasia nas pessoas. A emoção é muito presente nessa maneira de se comunicar, provocando uma interação humana que não é presente quando se lê um livro ou se assiste a um filme. Para as pessoas que são mais emotivas e gostam de estar em contato com o próximo, se tornou uma necessidade máxima ter outro ser humano diante de si. Elas sentem falta disso mais do que nunca, pois não se encontram e mal ouvem a voz umas das outras.


Como você acredita que essa atividade contribui para o desenvolvimento do jovem atual?

O que é bacana de se observar nos jovens é que eles gostam muito de falar, mas como dizem os japoneses, essa fala às vezes é um “tambor vazio”, pois citam muitas coisas sem saber o que estão dizendo. Quando ele entra em contato com uma história e pesquisa sobre ela, tem também a oportunidade de se interiorizar, exercitando algo muito importante para passar da adolescência para a fase adulta, que é se conhecer. Geralmente, o jovem se conhece por meio do grupo a que se associa, e anda “em bando” para descobrir quem realmente é. Quando ele pode vivenciar isso em um grupo de teatro ou de leitura desde cedo, acaba percebendo que suas escolhas dizem respeito àquilo que gosta e entende, enfim, qual a sua vocação, sem precisar que um terceiro lhe diga.

Você acredita que o jovem está receptivo a contar histórias e falar de si?
Não muito. Tanto o jovem atual como o de qualquer outro tempo passa por um momento em que precisa aprender a ter privacidade – e isso implica ter instantes de silêncio para digerir as informações. A criança responde a tudo o que você perguntar, enquanto o adolescente já tranca tudo dentro de si. Na transição para a vida adulta, o adolescente se percebe como ser humano e consegue falar mais, se expor de forma madura, podendo também contar histórias com mais naturalidade.

Acredita que a geração de hoje conta histórias de forma diferente das gerações anteriores?
Certamente, porque essa geração tem muita pressa e funciona como um dicionário, já que quer saber sobre muitas coisas, mas não se aprofunda em nada. Antigamente, as pessoas conversavam mais longamente e não se olhavam pensando “essa história não acaba nunca!”, como acontece muito hoje. A noção de tempo era diferente, hoje as pessoas têm muita pressa. Se você fala com um jovem sobre ciranda, por exemplo, talvez ele já tenha lido diversos livros sobre o tema, mas nunca praticou a brincadeira. Reflete diretamente nesse jovem o fato de não passar pela experiência e ficar só na teoria e isso é cada vez mais comum. Para essa geração, o conhecimento é muito amplo e a experiência é muito curta, criando algo vazio, já que falta a vivência.

Hoje você é contadora de histórias, mas é graduada em Direito. De que forma acredita que a intersecção entre essas diferentes áreas influencia no seu trabalho?
No Direito, os casos que levamos para a justiça são histórias, já que contamos algo para o juiz de acordo com a versão de uma das partes. Aprendemos também a decodificar a versão da outra parte, apontando incoerências e falhas. Nesse caso, estamos analisando histórias que têm personagens, elementos possíveis e impossíveis, que entram em conflito para você descobrir onde há incompatibilidade e derrubar uma tese, por exemplo. Há, nesse caso, uma relação direta com o processo de contar histórias. Porém, as mentiras e a hipocrisia praticamente me expulsaram do Direito, não conseguia conviver com pessoas predominantemente egoístas e foi justamente para fugir disso que fui para o mundo das histórias.

Que mecanismos você utiliza para recodificar ou interpretar as mensagens trazidas pelos jovens nas histórias?
Busco sempre analisar aquilo que, em termos modernos, “está pegando”, ou seja, o que esse jovem quer falar. Nessa temática, procuro entender a dor dele, trazer para o meu universo e devolver por meio da história uma solução que encontrei com a minha experiência. Isso auxilia o adolescente na percepção dele mesmo.

De que maneira, em sua opinião, é possível que as diferentes gerações estabeleçam um vínculo por meio da contação de histórias?
Para que exista esse vínculo, é necessário que as gerações queiram falar, mas também possam ouvir. É difícil, por exemplo, quando o mais velho só quer contar algo e não tem paciência para ouvir o que mais novo tem a dizer. Alguém que não tem a paciência de aprender não pode se dar o direito de ensinar. Vale a pena perguntar a opinião da criança, entender o que ela sente e incentivar que ela crie sempre algo diferente.

Você acha que falta um papel mais atuante dos pais em relação ao jovem?
Com certeza. Os pais têm a vida muito corrida. Na minha infância, meu pai trabalhava e minha mãe tinha tempo de ficar em casa, conversando e me orientando. Hoje em dia são raras as famílias em que a mãe pode fazer isso e, então, os valores não conseguem ser ensinados em sua totalidade. O que se aprende no seio familiar em termos de amor e de respeito não pode ser aprendido na escola, por exemplo. Quando podem ser contados pequenos detalhes sobre o processo de construção dessa família, como o vovô conheceu a vovó ou como o papai conheceu a mamãe, tudo isso serve como uma base para a criança se conhecer, já que somos fruto das nossas raízes. Atualmente, quando a mãe pergunta ao seu filho “como foi a festa?”, ele responde “boa!”. É preciso exercitar essa comunicação para adentrar o universo dos jovens.

Você acompanha e dirige diversos grupos no curso de Contação de Histórias da Livraria da Vila, em SP, e também em outros locais. Quais os principais obstáculos que encontra nessa atividade e como faz para driblá-los?
Eu sinto que, no começo, as pessoas achavam que essa atividade era uma bobagem, que as histórias eram tolas. Não sei se driblei isso, mas procurei dar tempo ao tempo e buscar sempre as melhores histórias. Muitas vezes, para fazer uma seleção de dez boas, você precisa ler duzentas. Porém, sempre me mantive firme porque eu não tinha dúvidas de que adorava isso, de que era algo muito valioso. Aos poucos, as pessoas que eram mais descrentes foram se aproximando e hoje, quando vejo alguém esticando um pouco mais o pescoço para ouvir melhor a história ou pedindo para o vizinho fazer silêncio, já é uma grande recompensa.

Para contar histórias é necessária certa irreverência e ousadia. Acredita que essas características estejam mais presentes na geração atual?
Acredito que a geração de hoje seja bastante ousada e irreverente, mas se perde às vezes no vocabulário. As pessoas, por não lerem e não conversarem tanto, se baseiam nas gírias, não adquirem um vocabulário enriquecido. Nesse sentido, a irreverência é muito interessante desde que seja uma exceção. Falta ao jovem a experiência para ver mais profundamente, fazendo com que nem sempre consiga adquirir dos mais velhos o que eles têm de melhor. Por causa disso, as gerações não estão conseguindo se comunicar de forma eficaz. Para que isso fosse solucionado, seria necessária paciência dos mais velhos e humildade por parte dos jovens, que muitas vezes não percebem que estão vivendo muito mais o virtual e quase nada do real.

O que os mais velhos têm a ensinar aos mais jovens sobre o processo de contação de histórias?
O principal a ser ensinado, na minha opinião, é o amor que eles colocam nas palavras. A geração que tem hoje 60, 70 anos, brincou de verdade, nas ruas, na fazenda, ouviu histórias, esperava um tempo até as coisas acontecerem, tinha mais paciência. Os jovens de hoje comem e bebem coisas instantâneas e ficam bravos se um download demora mais de dois minutos. Os mais velhos precisam ensinar aos jovens que as coisas levam tempo e que é preciso deixar o mundo acontecer no ritmo que ele é, não no ritmo que queremos que ele seja.

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6 Responses to ““Falta profundidade ao jovem atual””

  1. Tuka disse:

    TÁ SIMPLESMENTE FANTÁSTICO!
    TÁ REAL!
    CONHEÇO O TRABALHO DA DIANA, DIDI, E É EXATAMENTE ISSO!
    É OLHO NO OLHO, É A SENSAÇÃO DO AGORA!
    E VC TATY, FEZ LINDAMENTE ESSA ENTREVISTA, COM PERGUNTAS COERENTES E PRECISAS!
    DIGO QUE NÃO FOI UM ENCONTRO CASUAL, NÃO MESMO!
    TIVE A OPORTUNIDADE DE PARTICIPAR DESSE MOMENTO E RELENDO FOI E É INDISCRITÍVEL!
    VC TEM O DOM DAS PALAVRAS E SABE COLOCA-LAS DE UMA MANEIRA LINDA, PURA E VERDADEIRA!
    PARABÉNS POR MAIS ESSE TRABALHO.
    BJ GRANDE
    DO TIPO GRANDE
    DA SUA ADMIRADORA MESMO,
    TUKA
    :-)

  2. Silvia Kihara disse:

    Olá Tatiana,
    gostaria de salientar alguns pontos que comentaste no texto.
    Para a geração Y não existe o real e virtual, pois o virtual é real e o real é virtual. Esta divisão existe no modelo mental de quem não é um nativo digital ou seja é uma forma de ver o mundo de uma determinada época.
    Segundo ponto, os jovens pensam em hiperlinks, de uma forma não linear, a partir de uma lógica beta. Ou seja, o aprofundamento vai existir quando ele entender que é necessário.
    Pode ser que em algumas situações esta “falta de profundidade” seja prejundicial, porém desenvolve nesta geração uma capacidade de fazer novas conexões, a partir de pontos aparentemente distintos, já que o acesso às informações é muito maior.
    Abraço,
    Silvia Kihara

  3. Mas que excelente entrevista, Taty, parabéns!!

    Adorei ler sobre essa nova experiência e fiquei muito curioso por conhecer um pouco mais sobre o contador de história profissional. Como é possível trabalhar com isso?! Sabe que é uma arte que amo e procuro sempre manter esse hábito em minha casa, onde minha filha é a maior motivadora desse processo: ela adora ouvir histórias. Porém, a Diana citou e eu vejo essa mesma dificuldade de a criança não ter muita paciência para uma história longa. Minha Ana Clara de 4 anos não aguenta esperar eu terminar a página e já quer virar, acho que por causa das figuras, rsrsrs. Ela é muito novinha ainda…

    Grande abraço!

  4. tata disse:

    É exatamente esse tipo de ensinamento que falta atualmente na nossa sociedade e acredito em todas elas. Infelizmente os “velhos” são se quer percebidos, quanto mais ouvidos, tudo tende ao “turbo” ao “imediatismo”; quais são as crianças, ou jovens, com paciência necessária para se prender a uma historia do começo ao fim? Eu que já não sou tão jovem, tambem tenho essa dificuldade; porém, é aí que entra o contador de histórias, trabalhando o texto, tornando-o interessante o tempo todo, TRAZENDO UM ENSINAMENTO; quanto aos pequeninos lançar mão de todos os recursos para mantê-los sempre dentro dessa história, ao passo que aos jovens cabe ao contador destrincha-la ao máximo para não ser “pego no pulo” por uma pergunta ou uma observação que o contador não consiga solucionar.
    A Diana tem uma mega visão sobre tudo isso e consegue passar com muita naturalidade, segurança e propriedade aos seus alunos, ela é muito astuta e consegue fazer aflorar os sentimentos de tal forma que o aluno consegue viajar nessa história e fazer o mesmo ao contar suas histórias.
    Parabéns Tatiana pela qualidade dessa entrevista, pois nos faz pensar em como começar desestressar as crianças,melhorando a juventude simplesmente, voltando ao velho hábito de simplesmente contar histórias. ISSO É D+ :)
    A VIDA É UMA HISTORIA.

    BEIJÃO

    Ana Maria
    psicologa

  5. Nossa Tati K

    Que show de matéria!

    Muito bom ter e apreciar o um trabalho como este.

    E está entrevista me ensinou e apresentou muito interesse no assunto.

    Vou buscar mais informações.

    Beijos

  6. Grata pelo carinho de vocês em comentarem a entrevista!
    Beijocas!

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