
Por Eline Kullock
O adolescente de antigamente queria ser adulto. Era com uma felicidade danada que ele recebia as suas primeiras calças compridas, o que queria dizer que ele era, enfim, considerado um homem. Pronto para ajudar na casa, no trabalho do pai, no que fosse necessário.
Parece-me que hoje há um sentido inverso.
Os pais gostariam de ser crianças, adolescentes novamente. Contardo Caligaris descreve esse conceito com perfeição no livro A ADOLESCÊNCIA (escute o podcast aqui). Como o mundo ficou mais complexo, como as famílias se desintegraram (há poucos casos em que a grande família se reúne com alguma freqüência), o mundo ficou mais individualista e solitário.
As pessoas tiveram que “se virar” mais sozinhas. Entrar num trabalho que nem sempre agrada e raramente, insisto, raramente as fazem felizes.
Tiveram que concordar com valores ou processos com os quais não eram a favor. A eterna briga pelo poder, algumas mentiras, a necessidade de ser visto e reconhecido pelo chefe, de ganhar mais, de manter o emprego. Tudo isso sem poder reclamar, sem contestar, porque a cultura organizacional ainda não mudou para uma cultura aberta, onde se pode confrontar, dizer de fato o que se pensa.
Ora, o adolescente não tem essa proibição. Afinal, quando nós adultos criamos as histórias infantis, nós mesmos idealizamos uma criança transgressora. Veja o caso de Chapeuzinho Vermelho. Embora a mãe tenha dito para ela ir por um determinado caminho, ela foi por outro. Assim como o Nemo, que desobedeceu o pai e foi pra longe dele. E o Cascão? Que não toma banho?
Todos esses personagens que transgridem, não seguem a ordem dos pais, são inventados e escritos por quem? Pelos adolescentes? Não, pelos adultos, que estão loucos para serem adolescentes novamente e poderem transgredir.
Só os adolescentes têm o direito da transgressão. Eles são o depositário da nossa vontade de gritar, fazer o que não é permitido, dizer “o rei está nu”.
Antigamente, uma criança era vestida como criança. De repente, lá pelos anos 80, começou uma moda de vesti-los como adolescentes! Bermudão, boné virado pra trás, camisetas com frases engraçadas, a sociedade valoriza o jeito “adolescente de ser” e mostra isso na forma como veste suas crianças e a si próprio! Eles procuram, nos finais de semana, o mesmo tênis, a mesma bermuda larga, o mesmo chinelo. É a valorização do estilo transgressor que este jovem nos dá, mas não nos é possível vivê-lo.
É nesse contexto que o jovem entra na organização. Transgressor. Capaz de dizer o que lhe vem à mente. Capaz de confrontar. E é nessa hora que a Organização lhe impõe uma camisa de força, em que deixa de ser ele mesmo, mas tem que lidar com essa dupla identidade. O “ele adulto”, que se conforma com as regras, que ele tanto acusou em seus pais como hipócritas, ou o “ele adolescente”, que pode mudar o mundo.
Como vocês acham que se dá esse momento? Sem dúvidas, com muito atrito, muita confusão mental, com o questionamento sincero desses jovens se este caminho escolhido é o certo.
É por isto que há uma grande perda nos programas de trainee ou em tantos jovens que começam numa empresa.
Embora seja importante destacar que estou falando, claramente, dos jovens de classe média e classe média alta, que puderam, tiveram espaço para transgredir. Não estou me referindo aqui ao enorme Brasil que começou a trabalhar cedo e nem soube o que era ser criança ou adolescente. Este, já entrou de cabeça baixa na organização e não ousa levantar a voz. Nunca foi Chapeuzinho Vermelho ou Nemo. Transgrediu de outras formas. Mas não no trabalho, essencial para a sua sobrevivência.





É verdade, Eline… o desejo de toda criança é parecer adulto, e a recíproca é verdadeira.
Na época em que o meio de vida era rural, cada pessoa exercia o seu papel, não havia veículos que influenciassem os adultos a querer parecer mais jovens do que realmente eram. Era bonito ser adulto, maduro, bigodudo e de roupas sóbrias, como na novela “Escrava Isaura”. Por outro lado a criança conhecia muito pouco do mundo adulto, e com isso desfrutava de sua fase em cada etapa da vida, no tempo certo. E tudo estava no seu devido lugar.
Com o advento da TV, das novelas e dos filmes, a sociedade passou a conhecer coisas novas, e isso os influenciava e reportava para os prazeres de uma idade que ainda estava por vir, ou quem sabe voltar a desfrutar daquela idade empolgante que já passou.
A responsável por tudo isso é a mídia, a comunicação agressiva e de fácil acesso a todos, que nos transporta para um mundo de fantasias e de expectativas que nos encheriam de prazer. Acredito mesmo que esse é o fermento de nossas imaginações mais ousadas de até voltar no tempo e voltar a agir como adolecentes.
A fase adolecente é aquela onde tínhamos a coragem de dizer e de fazer o que hoje já não temos… éramos emocionais e nos tornamos racionais. Isso é sinônimo de maturidade, mas nosso instinto quer de volta a liberdade de expresão dos anos dourados, rsrsrs.
Grande abraço, Eline!
Eline, querida,
Perfeita reflexão sobre essa fase tão intensa da vida!
O Contardo é o máximo mesmo, li quase todos os livros dele!! Este, então, é um dos meus prediletos!
Parabéns!
Um beijo!!!
Adriano e Taty,
Grata pelas colocações construtivas de vocês!
Um beijo,
Eline
Perfeita a sua divulgação entendi perfeitamente,
com explicações perfeitas , com tudo e todas as respostas que uma pessoa precisaria ter!
sou grata!
by: jhese whonder !
Querida Eline,fico grata pela divulgaçao deste assunto.Eu que tenho em casa tres adolescentes fico louca as vezes em pensar que posso estragar o crescimento dos meus filhos,fico louca procurando material,livros que me ajudem a lidar com a diversidade de mudança que ocorre no adolescente.Agradeço pela informaçao deste assunto.Beijos!!