Feed on
Posts
Comments

Por Mauro Segura

Em um período em que o mundo passa por grandes transformações, a comunicação e a internet mudam radicalmente a forma como nos relacionamos e fazemos negócios, nada mais natural do que discutir o velho ambiente das salas de aula. Em época de colaboração intensa, parece que o tradicional modelo da aula expositiva, em que o mestre fala e os alunos escutam, está com os dias contados. Será mesmo?

Encucado com isso, conversei com dois adolescentes (ou nem tanto, pois ambos têm mais de vinte anos e estão na universidade) sobre como eles veem a sala de aula.

Um deles está insatisfeito com o curso, carrega as aulas como um fardo e encara a sala de aula com muito sacrifício. Já o outro adora estudar, está fazendo mestrado, é um curioso “by design”, não sofre com a sala de aula, mas mesmo assim, não se mostra um entusiasta com o ambiente da universidade.

Criei dois nomes fictícios, Sérgio e Alex. Obviamente, não podemos generalizar, pois são apenas duas pessoas dando sua percepção individual, mas é interessante analisar. Ah, importante frisar que eles não estudam na mesma turma.

Eis a primeira entrevista, a segunda será publicada no próximo post (amanhã):

Mauro – Como você avalia a sala de aula?
Sérgio – A sala de aula é um lugar muito chato. E não é só a minha opinião, todos os meus colegas têm o mesmo sentimento. Eu acho incrível que alguns professores ainda usem quadro negro (lousa em Sampa!!) e giz. Tem um professor de 70 anos de idade, o cara é muito metódico, tradicional, já vem com a aula montada e não se importa com os alunos. Usa o powerpoint e parece que faz a aula para as paredes. Ninguém presta atenção.

Mauro – Mas, se ninguém presta atenção, o que rola nas aulas?
Sérgio – A maioria do pessoal traz um monte de gadgets para dentro da sala de aula, como celulares e notebooks. E não é para usar na aula, é para se distrair mesmo. O pessoal fica navegando na internet e faz outras coisas enquanto o professor fala. Também é comum ver os alunos tirando foto do quadro negro com máquina fotográfica e celular, o que mostra a preguiça e a chatice dentro da sala. Poucos usam realmente o notebook e os celulares para fazer anotações ou pesquisar, a maioria usa para ficar na internet durante a aula.

Mauro – Então isso é liberado dentro da sala?
Sérgio – Sim. A PUC inteira tem wi-fi grátis para os alunos. Qualquer um pode abrir o notebook e usar livremente.

Mauro – Os professores ficam chateados?
Sérgio – Não sei. Acho que não. Todo mundo faz isso. Eu nunca vi um professor pedindo para fechar um note ou parar de usar um gadget. Eles já se acostumaram.

Mauro – E os celulares tocam durante as aulas? O pessoal desliga os aparelhos?
Sérgio- Nunca vi ninguém desligar o celular. Mas quem desliga hoje em dia? O pessoal coloca no silencioso, mas às vezes alguém esquece. Quando o celular toca, as pessoas saem da sala para atender.

Mauro – Então ninguém presta atenção?
Sérgio – Não é bem assim. Tem aulas que são boas, mas são poucas. Eu me identifico mais com um professor mais novo que se veste de forma mais despojada, dá uma aula menos estruturada e principalmente conversa com os alunos. Isso faz a aula ficar mais legal e o pessoal presta mais atenção.

Mauro – Vamos ver se eu entendi. As aulas expositivas são chatas e desinteressantes. A desatenção é geral. As melhores são as aulas interativas, onde o papo rola mais desestruturado e solto. É isso?
Sérgio – É isso mesmo.

Mauro – Você falou que este professor que você gosta se veste de maneira despojada. Pegando o gancho, o pessoal fica a vontade dentro da sala?
Sérgio – Sim. O pessoal fica largado nas cadeiras. O absurdo é que tem professor que proíbe botar o pé em cima da mesa.

Mauro – Se rola este clima à vontade, como fica o horário?
Sérgio- A maioria das aulas começa atrasada, porque o professor chega tarde ou porque não há alunos dentro da sala. É muito comum. Algumas vezes eu mesmo cheguei na sala e ao ver que estava vazia e que eu seria o primeiro a entrar, desisti e fui embora.

Mauro – E os trabalhos? Tem muita carga de trabalho?
Sérgio – Acho que tem muita. Mas a gente encontrou uma forma de facilitar. Alguns alunos criaram uma pasta compartilhada no site dropbox. E, escondido dos professores, todos compartilham trabalhos antigos e atuais, matérias relacionadas e colas em geral.

Mauro- Quer dizer que o pessoal vai no site dropbox e baixa trabalhos já feitos e entrega para os professores como se fossem novos?
Sérgio- Isso mesmo.

Mauro- E a cola rola durante as provas?
Sérgio – Nas provas que podem fazer consulta, os notebooks são permitidos. Isso faz com que todo mundo se fale à vontade pelo MSN, por alguma rede social ou qualquer outro meio que todos possam se conectar. E nem precisa ter internet, porque os notebooks e gadgets permitem se falar por bluetooth. Mas acho este negócio de prova muito velho, acho que os trabalhos deveriam ser todos em grupo.

Mauro- Os professores usam e-mails ou redes sociais para conversar com a turma fora do horário de aula?
Sérgio- Quase todos os professores interagem com os alunos através de e-mails. Eles mandam para a turma inteira de uma vez só, através do sistema da PUC. Todos os trabalhos são entregues por e-mail, poucos são entregues impressos.

Mauro- Depois disso tudo que você me contou, você acha que a sala de aula deveria terminar? Você acredita em aula remota?

Sérgio- Não existe impedimento tecnológico para que as aulas sejam remotas, porém, se isto acontecesse, acho que o interesse e rendimento dos alunos iriam cair muito. Por isso, a sala de aula ainda é o melhor ambiente, mas me sinto obrigado a comparecer.

Mauro- Qual a sua visão sobre a vida acadêmica?

Sérgio- Eu vejo que a vida acadêmica não tem nada a ver com o mundo real.

Agora imagine este adolescente numa empresa. Imagine então muitos adolescentes iguais a este no mundo corporativo. Acho que teremos grandes transformações pela frente…..

Related Posts with Thumbnails

4 Responses to “A sala de aula vista por um adolescente – Entrevista 1”

  1. Guilherme disse:

    Acredito que nos dias de hoje ainda estamos na fase dos conflitos organizacionais, onde a gen Y é observada com um certo receio e a idéia de mudança dos processos internos em pro destas pessoas é tão distante quanto a tão almejada aposentadoria dos gen X/b. boomer . Porém, é claro, isto irá mudar com os líderes com idéias mais jovens assumindo e criando outras organizações.

  2. Sannily disse:

    Muito bom Mauro

    Tambem sou academica e penso que este aluno entrevistado não se difere de muitos que existe por ai. Porém discordo de alguns ditos, como por exemplo “O absurdo é que tem professor que proíbe botar o pé em cima da mesa”. O absurdo seria se o professor liberasse os pés nas mesas. Respeito, independente da geração pertencente nunca é demais.
    A didática dos professores poderia mudar, serem mais dinamicos. Provas escritas não são a melhor maneira de avaliar se um aluno aprendeu ou não tal assunto. Os jovens de hoje são interativos, gostam de trabalhar em equipe, querem dar opinião e estão dispostos a isto, desde que deem oportunidade para que isto possa acontecer.
    Aguado ansiosa para a proxima entrevista!

  3. Luis Alfredo de Almeida Cruz disse:

    Mauro, gostei bastante da revelação simples e direta do pensamento de parte da gen Y. Estou aguardando a de amanhã.

    Abs,

    Luis Alfredo.

  4. Interessantíssimo o assunto. Acho que já passou da hora de uma revisão didática nas escolas e Universidades de nosso país. Mal posso esperar para ler o desfecho dessas entrevistas.

Deixe Seu Comentário