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Por Isabel Kopschitz

Da próxima vez em que pensar em criticar um colega de trabalho — mesmo que mentalmente — pense no que ele pode acrescentar à sua forma de fazer as coisas. As gerações baby boomers (na faixa dos 60 anos) e X (na faixa dos 40) estão vendo o ambiente corporativo mudar com a entrada de cada vez mais representantes da geração Y, que, no auge de seus 20 anos, é extremamente ligada à tecnologia e quer tudo “para ontem”.

Especialistas em gestão de pessoas afirmam, porém, que esta diversidade é positiva quando se aproveitam as qualidades do outro para melhorar a sua forma de trabalhar. Foi o que aconteceu na Demetrius Borges Fotografia. Negócio familiar iniciado por Mauro Neves, de 70 anos, e continuado por sua filha Elaine e o marido Demetrius, agora recebe as contribuições da neta Gisele, de 22 anos. Em pouco tempo, a jovem fotógrafa conseguiu renovar o site da empresa — dando destaque às redes sociais —, criar uma nova logo e informatizar o que faltava.

— Ela já chegou propondo várias mudanças. No início, relutei muito, mas hoje vejo que são boas ideias — conta Elaine.

Formada em publicidade, Gisele, por sua vez, admite que também aprendeu com a mãe e o avô valores aos quais não prestaria atenção.

— Eles fizeram questão de me mostrar os processos antigos de revelação, e isso é importante para valorizar o trabalho do fotógrafo — diz. — Eu não conseguia conceber como eles ainda podiam ter arquivos de papel, mas minha mãe se sentia mais segura assim.

O mesmo profissional com ímpeto tão forte de renovar, flexibilizar, diminuir a burocracia e a flexibilidade nas organizações, porém, nem sempre tem a paciência necessária para crescer profissionalmente. Pesquisas mostram que a geração Y passa, em média, apenas um ano em cada empresa.

— Os Y não entram nas empresas, eles metem o pé na porta — diz Janaína Ferreira, consultora em desenvolvimento humano do Ibmec.

Por outro lado, cerca de 30% dos cargos de chefia no país são ocupados por representantes dessa geração. Para Jorge Saraiva, de 33 anos, sócio da empresa de comunicação Immersion, os perfis distintos dos profissionais são bem-vindos e contribuem para resultados mais efetivos.

— Uma empresa composta por profissionais experientes, mas com ímpeto inovador, e mais jovens, mas que não se deixam levar apenas por uma nova idéia, sem viabilidade, é a alquimia perfeita — opina.

Na prática, nem sempre, porém, este convívio é produtivo.

— Por serem impacientes e ansiosos demais, às vezes os Y puxam o próprio tapete — explica Janaína. — Eles se beneficiam da maturidade emocional, do equilíbrio e da paciência das gerações X e dos baby boomers.

Diretora financeira de uma tradicional organização financeira há mais de 20 anos, Jane Bernardo acompanhou a mudança do perfil dos recém-chegados à empresa. Muitos dos novatos, conta, nem chegam a terminar o programa de trainees, tamanha é a ansiedade por promoção. A postura ansiosa, lembra, muitas vezes é vista pelos funcionários mais antigos como arrogância. Quando descobrem que a ascensão levará mais tempo do que imaginavam, conta, saem em busca de outro lugar.

— A pressa deles é como um dedilhar de teclas de computador — define. — É uma pena, porque às vezes uns se arrependem e querem voltar, mas aí não dá mais.

Por outro lado, os mais velhos, no convívio com os Y se beneficiam de sua forma pró-ativa de lidar com tecnologia e de sua criatividade para encontrar soluções inusitadas.

Para Sylvia Vergara, doutora em Educação pela UFRJ e mestre em administração pública pela FGV, as empresas precisam aprender a considerar a convivência entre essas gerações apenas mais um componente da diversidade dentro das organizações, e tirar partido das diferenças.

— É sempre bom ter diversidade. Não adianta manter a forma burocrática e funcionalista de agir. É preciso mudar as estratégias, adequá-las à nova realidade que surge com as tecnologias interativas — defende. — A ideia é de troca, complementaridade, não de embate. As empresas que não souberem lidar com a geração Y e atender aos seus anseios terão sérios problemas.

Sylvia ressalta que as corporações devem tirar partido das qualidades de cada geração, mas que isso implica necessariamente uma mudança cultural. Acima de qualquer valor, diz, está a visão dos funcionários como geradores de recursos, não como os próprios recursos.

Fonte: O Globo

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