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Fazia pouco mais de um ano que o Brasil havia sofrido o Golpe Militar de 64 quando o administrador de empresas Waldir Bento Vinturini ingressou na Ford do Brasil. Ele tinha 15 anos e mal sabia que o dia 14 de agosto de 1965 se tornaria o primeiro dos milhares que ele passaria na companhia. Vinturini, hoje aposentado e com 62 anos, passou 33 deles na Ford. Contratado como office-boy, tornou-se coordenador do setor de compras, passando por diversas outras áreas ao longo desse tempo. Vinturini é um autêntico membro da linhagem Baby Boomer.

Nascidos entre 1945 e 1964, os filhos da Segunda Guerra Mundial, indivíduos que acompanharam de perto as mudanças culturais e sociais das décadas de 1960 e 70, agora começam a se aposentar. Por terem vivido experiências comuns – em razão do tempo histórico que dividiram – possuem características que os unem. “Normalmente são pessoas que valorizam posições hierárquicas e tradições, além de prezarem pela durabilidade de relacionamentos interpessoais no trabalho, permeados por trocas mútuas e valores de reciprocidade”, explica o coordenador do curso de Gestão de Recursos Humanos da Universidade Metodista de São Paulo, Rafael Chiuzi.

Vinturini representa bem tais características. Para ele, por exemplo, a troca de emprego precisa ser vista com cuidado e feita com os pés no chão. “Mudar toda hora de empresa, prática comum na geração atual, impede a criação de raízes profissionais e, muitas vezes, transmite aos empregadores a impressão de instabilidade”, afirma. Para defender seu ponto de vista, usa como exemplo sua própria experiência: “O tempo que passei na Ford fez com que eu ganhasse confiança de meus superiores e me permitiu conhecer profundamente a rotina da empresa, dando condições para meu crescimento”.

Saudosista, também defende a relevância dos relacionamentos interpessoais no ambiente corporativo, como um típico Baby Boomer. “Antigamente as pessoas eram mais preocupadas com o bem-estar dos companheiros”, ressalta, acrescentando que até mesmo as organizações tratavam os colaboradores de maneira diferente. “Havia mais confiança na relação entre empregado e empregador, o que aumentava a dedicação dos funcionários”, avalia.

Essa consideração pelo outro – tendo como pano de fundo a perspectiva de relacionamentos mais duradouros – é destacada pelo professor Chiuzi como um dos legados da estirpe de Vinturini. O respeito por pessoas mais velhas e a estruturação de processos (especialmente dentro das organizações) são outros exemplos que, segundo o acadêmico, “estão infelizmente caindo em desuso”. Essas características refletem outra qualidade comum aos boomers: a lealdade, conforme aponta o diretor da Hays em São Paulo, Rodrigo Vianna. “No pós-guerra as empresas foram varridas por crises e puderam contar com seus empregados no processo de reconstrução.”

Com grande respeito à hierarquia, o modo como esse pessoal lidera também é algo a ser destacado. “Eles criaram a liderança por consenso, ou seja, o líder era sempre o mais velho e experiente”, destaca Vianna. Segundo ele, isso hoje quase não existe mais. “As gerações atuais se dão bem na liderança por competência, por exemplo, mas seus líderes não possuem a mesma legitimidade de antigamente”, comenta.

Esse legado apontado pelos especialistas é familiar também a José Antônio Perucci, de 71 anos, com 43 deles vividos na Scania. Tendo ingressado na companhia aos 22 anos, como auxiliar administrativo, foi promovido em 1975 a supervisor de folha de pagamento, cargo que ocupou até sair de lá, em 2006. “Eu tinha um bom relacionamento com todos os funcionários; conhecia do faxineiro ao presidente, e isso contava bastante para fazer meu trabalho, já que eu era responsável por fazer o pagamento de todos”, conta. Para ele, ter responsabilidade e comprometimento, além de fazer o “trabalho direito”, foram pontos a favor que contribuíram com seu crescimento na empresa.

Mas não são só boas qualidades que perfazem a cultura dos Baby Boomers. Para o professor Chiuzi, “a submissão e o ideal de chefia autoritária” estão entre as características que devem ser deixadas de lado. No campo econômico, o consultor Vianna ressalta a falta de planejamento em relação ao futuro. “Eles não tiveram ambição para ganhar dinheiro e hoje estão sofrendo com isso”, aponta. O consultor de finanças pessoais Jurandir Macedo, do Itaú, concorda com o impacto que essa característica causa não só a esses profissionais, mas também à realidade brasileira. “Essa geração não esperava viver tanto tempo e trabalhou segundo a ideia de que o governo a sustentaria na velhice. Agora, com idade para se aposentar, muitos deles sofrem por não ter se planejado adequadamente”, diz. Para o especialista, isso é um dos fatores que estimula a permanência de muitos desses profissionais na ativa. “A outra justificativa é a falta de mão de obra qualificada e com experiência suficiente para assumir grandes projetos”, complementa.

Levantamento elaborado pela consultoria Hays comprova esse fator: atualmente, 20% das companhias contratam profissionais já aposentados, que voltam ao mundo corporativo. O estudo aponta também que 50% dessas contratações acontecem em razão da necessidade de mão de obra especializada, com vivência na área de atuação e experiência em projetos específicos. “Há um déficit muito grande nesses perfis, e os Baby Boomers se encaixam perfeitamente nessa necessidade do mercado. Além de possuírem características que os credenciam para tanto, possuem conhecimentos e experiência que nenhum outro profissional tem”, aponta o consultor Vianna. Essa vivência, aliás, é para ele a maior herança desse grupo: “Não existe legado maior do que a experiência acumulada ao longo dos anos”.

 

Fonte: Canal RH

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