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A TV foi, durante muito tempo, uma companhia para as pessoas solitárias.

Quando a revolução industrial aconteceu e as pessoas  migraram do campo para a cidade, o isolamento e o sentimento de solidão fizeram , na Inglaterra do século XVIII, com que o povo começassem a beber Gim. A bebida intoxicante era uma forma de se lidar com a solidão do mundo caótico, frio,  em transformação.

O rádio e posteriormente a TV tem sido o nosso Gim. Não vemos só o que há de bom na TV. Vemos vários programas, mesmo que eles não nos tragam algo de novo, como uma forma e nos aproximarmos do mundo. Aí entram as novelas, com sues personagens, que várias pessoas acreditam mesmo que são reais. Uma pessoa que nasceu em 1960 já viu, em média, 50 mil horas de TV.

As três atividades mais comuns nos grandes centros,em países com o PIB ascendente,  são trabalhar, dormir e ver TV, de acordo com Clay Shirki, no seu livro A Cultura da Participação. É com a TV que desenvolvemos o sentimento de pertencer ( sense of belonging), que vem aliviar nossa solidão  (Ver aqui) . Os artistas que vemos na TV constituem um conjunto de amigos imaginários. Segundo o trabalho desenvolvido por Jaye and Shira, “as pessoas se sentem menos solitárias quando assistem ao seus programas favoritos”.

A partir dos anos 2000 surgem, então , as mídias sociais, que nos permitem interagir, de fato, com pessoas “amigas”, mesmo que imaginárias, que substituem o papel quase exclusivo da TV no mundo moderno. No estudo de Paul Bond ( Young people watch less TV ) constatou-se que a geração Y é a primeira a assistir menos TV que seus pais. Esta é uma geração que tem, de repente, acesso a uma mídia mais rápida e interativa, substituindo o hábito de ver TV pela interação com outras pessoas pelas mídias sociais.

Ora, com a solidão das grandes cidades, cada vez mais violentas e com um trânsito caótico, fatores que inviabilizam os encontros frequentes entre amigos, esta interação pelas mídias sociais substitui a TV, e por consequência a “amizade imaginária reconfortante” proporcionada.

Esta relação “virtual” nos permite até mesmo transformá-las em amizades em amizades frente a frente ( não quero aqui chama-las de reais porque as virtuais também são reais). Eu mesma tenho 3 grandes amigas que conheci pela Internet e após uma longa troca virtual, vim a conhece-las frente a frente, dando mais legitimidade a essa amizade. (Claudia, Eliane e Janaína, vocês são a prova de que esta possibilidade é real).

Se há identificação com esses novos amigos desenvolvidos no ambiente virtual e se eles passam a compartilhar interesses comuns, é normal que estas pessoas reforcem, na vida real, a amizade iniciada nas redes na vida real. Se, neste momento de Brasil, onde as pessoas reconhecem que o nível de justiça ( definido no post anterior) é insustentável, é normal que estas pessoas se encontrem nas redes para compartilhar esse sentimento e posteriormente levem essa relação para o encontro frente a frente.

Essa possibilidade da Geração Y sair às ruas em manifestações ( no meu tempo isso se chamava passeata) lhes confere um enorme senso de pertencimento ( sense of belonging), maior do que a TV proporcionava, e mesmo maior do que as mídias sociais permite! Na solidão das grandes cidades, das famílias distantes e agora menores (os pais passaram a ter um número menor de filhos diminuindo o tamanho da família como conhecida antes), as ruas e as manifestações vem preencher uma necessidade das pessoas de dar vazão a angústia da solidão, de estar mais próximo dos outros, dividindo mesmo, com “a massa”, sentimentos e valores comuns.

Quando as “passeatas diminuíram de intensidade, nesta semana, percebi nas redes sociais uma “saudade” enorme desses momentos de encontro, lutando por um objetivo comum, que vem aplacar o sentimento de isolamento próprio da grande cidade. Vejo as pessoas interagindo mais nas redes sociais, vejo posts mais comentados, compartilhando mais os sentimentos de indignação pelas injustiças cometidas. As pessoas se aproximaram ainda mais.

Se uma mudança radical na sociedade fosse facilmente compreendida ela não seria uma revolucionária.

Estamos em pleno momento de erupção, e essa revolução é, hoje, fruto dos novos canais de interação entre as pessoas, do sentimento de injustiça em função das desigualdades, da corrupção e de uma política não inclusiva adotada pelos governantes, além de ser um reflexo de uma sociedade mais angustiante diante das pressões de sobrevivência e dificuldades de convívio.

A ida às ruas é consequência natural desses fatores, resultado de uma equação onde todas as variáveis impulsionam o jovem a agir desta maneira. A Geração Y não vai parar mais de ir às ruas se manifestar, em grandes grupos onde eles se sentem incluídos, como times de futebol, como escolas de samba, representando mais uma forma de inserção no contexto do mundo onde vivemos.

Quem viver, verá.

 

 

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