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Sei que muito já foi dito e mostrado sobre os chamados “rolezinhos”, mas gostaria de contribuir para a discussão porque acredito que esse movimento tem muito a ver com o que pesquiso e discuto aqui no blog. Acho que toda essa polêmica em torno do tema foi criada justamente por conta do vácuo de compreensão existente entre as novas gerações e as anteriores. Reparem que até a imprensa demorou para entrevistar os jovens envolvidos! Até então tudo era apenas divagação e todo mundo parecia perdido. Ninguém entendia direito o que significava aquele tumulto.

Me perguntaram se essa nova moda, que vem dando o que falar, é coisa da geração Y, e por isso eu vim até aqui responder: é, sim. E também é uma coisa muito brasileira! Também falei sobre o tema na Radio Globo, entrevista que você confere clicando aqui. Mas, para entender de cara o que está por trás desse comportamento não precisa ir muito longe; basta lembrar que o homem é um ser social. Ele tem necessidade de interagir com outras pessoas e os rolezinhos proporcionam exatamente isso: sentimento de participar e pertencer.

Pode-se dizer que a composição da sociedade também contribuiu para que esse tipo de movimento surgisse. Com famílias cada vez menores (os pais de hoje têm menos filhos que nossos avós e bisavós), desagregadas (divórcios, mães solteiras) e com nova formação (casais homossexuais) o grupo social familiar diminuiu muito e perdeu sua onipresença.

Por outro lado, também não existem mais as praças onde as pessoas interagiam, nos velhos tempos, com homens caminhando em uma direção e mulheres na outra – o famoso footing. A Igreja também já não cria este ambiente agregador. Toda essa mudança estimulou os jovens a irem “procurar sua turma” em outro lugar.

Ao mesmo tempo, estamos na era da rapidez, da tecnologia e mídias sociais, como diz Clay Shirsky no livro “Lá vem todo mundo”. Este poder das multidões é coisa da nossa era. Todo homem é fruto da sua época e os jovens da geração Y não fogem à regra. Eles se conectam muito facilmente e organizam encontros num piscar de olhos.Estão aí todos os ingredientes que, misturados à rebeldia adolescente, são propícios para criação de movimentos como esse.

O problema com comportamentos de grupo é que eles são diferentes da soma de comportamentos individuais. Todo homem tem o que se chama “ neurônios-espelho”. São aqueles que fazem a gente bocejar quando vê alguém bocejar, sabe? Assim, as pessoas assumem comportamentos que inicialmente não seriam seus a partir da visão do comportamento dos outros, especialmente se estiverem em sintonia com eles. É o problema das torcidas de futebol: gente que afirma que nunca entraria em uma briga e de fato entra quando vê os outros brigarem. Para mim, esse é o grande risco do rolezinho.

Em sua essência, o movimento promove o encontro, mas em seu desdobramento – que foge ao controle do que foi planejado, há muita gente que se infiltra para se manifestar de formas menos, digamos, cívicas. Além do risco natural de grupos políticos ou anárquicos assumirem a autoria do movimento, que nasceu, de fato, de uma demanda por espaços de convívio e de encontro.

Não acho que os shoppings que cerceiam esses encontros estão criando um “apartheid” de classes. Qualquer movimento anárquico, no qual não se possa controlar os desmembramentos, deve ser motivo de preocupação.

Por outro lado, eu você e toda a sociedade temos tudo a ver com isso, ainda que não participemos de nenhum rolezinho. E nossa função, como sociedade, promover espaços públicos de convívio e de direcionamento da energia criativa dos nossos jovens: eventos de esportes, música, discussões (fóruns) sobre os nossos problemas ambientais, sociais e outras causas.

Os jovens de hoje querem ser ouvidos, querem participar, tem voz e poder de mobilização. Então cabe a nós ajudá-los, criando os processos e locais adequados para que esta participação seja efetiva e enriquecedora. Afinal, eles tem muita força, como se viu na TV e nos jornais… É nosso papel ajudar para que eles se sintam orgulhosos de participar, de contribuir, de aprender. Esse é o papel de uma sociedade construtiva.

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