Feed on
Posts
Comments

 “We shape our buildings, and afterwards, our buildings shape us.” (Winston Churchill)

 

“Nós construímos (damos forma) nossos prédios e, depois, eles nos constroem (nos moldam). A frase, proferida pelo político e estadista inglês Winston Churchill, em um discurso em 1944, parece antiga e ultrapassada, mas pode ser perfeitamente adaptada para os dias atuais. Hoje, as construções que nos influenciam não são mais físicas, de concreto. Agora, é nossa arquitetura virtual que nos molda e nos induz a novos tipos de comportamento. São essas as que vão nos “construir”, daqui em diante.

Edificamos novas formas de acessar coisas e pessoas, lugares e possibilidades. Erguemos redes de comunicação eficazes, rápidas e inteligentes e assim, estamos construindo nosso presente e nosso futuro. É essa a ideia de Nicholas Carr no livro “O que a Internet está fazendo com as nossas mentes”, reforçada por Sherry Turkle em “Alone Together”. Para eles, é preciso assumir que o modelo mental da geração que nasceu após o surgimento dessa nova tecnologia, como a conhecemos hoje, trará consequências na maneira como essas pessoas pensam e agem. E a discussão não esta centrada em se esse novo modelo mental é melhor ou pior do que modelos anteriores, mas sim no fato de que estão em processo de mudança e evolução.

O fato de estarmos tão dependentes de nossos smartphones, a ponto de quase entrarmos em crise de abstinência ao passar algum tempo sem checar mensagens, acessar e-mails, redes sociais ou fotografar enlouquecidamente, é um sintoma dessa mudança de comportamento. Alias, é um sintoma coletivo, quase uma histeria porque não é raro perceber que, muitas vezes, as pessoas se privam de viver o momento real em função do virtual. Esse novo tipo de relação estabelecida por nós tem uma interferência direta no modelo mental que construímos.

Nesse sentido, me inquietam os impactos e possíveis desdobramentos desse novo modelo no comportamento da Geração Y e das que virão depois (a geração Gamers, como eu os chamo). Minha geração aprendeu que é importante ter momentos de reflexão, a sós, equilibrados com as experiências em grupo: em família, na escola ou com os amigos. A convivência com outras pessoas sempre foi importante, mas um trabalho profundo de reflexão, emocionalmente esgotante mas produtivo, requer a habilidade de ficar sozinho, sem qualquer outro estímulo aos quais estamos hoje acostumados (um livro, no máximo!).

Mas parece, inclusive, que a questão da experiência de “estar sozinho” é mal compreendida nos dias de hoje. Rapidamente a comparamos à sensação de “ser solitário”. Mas, se pensarmos bem, são coisas bem diferentes. Estar bem sozinho, acompanhado de si mesmo, feliz por ter um tempo que permite pensar, criar, ter ideias é algo absolutamente normal, saudável e necessário. O conceito de “solidão”, no qual nos sentimos excluídos dos acontecimentos, ou que os outros estão vivendo intensamente algo que não estamos é outra coisa.

As redes sociais procuram promover essa sensação de integração “full time”, mas acaba provocando ainda mais sentimentos de solidão. Ao saber, via Facebook, que houve uma festa da qual não participou ou um evento para o qual não foi convidado, o individuo pode ser inundado de um sentimento dolorido de solidão, que se instala com muita força. Afinal, uma das maiores dores é a dor da exclusão. Ela dói fisicamente, já nos disseram os neurocientistas.

Uma das promessas da internet é de que nunca estaremos sozinhos. Por mais paradoxal que pareça, ao estarmos plugados nas redes sociais, a rede nos confronta com a nossa própria solidão. Nossa tendência é, então, estarmos em mais lugares ao mesmo tempo, freneticamente compartilhando e curtindo tudo o que for possível. Compartilho, portanto, existo. Curto, portanto, sou percebido. Como tudo precisa ser feito rapidamente há menos conversas ao vivo, e consequentemente, menos espaços de reflexão.

A criança pequena se transforma no objeto com o qual ela brinca. São a textura, a força, a resistência dos materiais das brincadeiras de infância que vão forjando quem ela será. Ela é construção do que foi transmitido por seus pais. Se, no mundo atual, não há espaço para a pausa, como incutir a necessidade da pausa nos filhos? São também as pausas, e não somente as ações, que nos definem. Se vivemos em um ambiente sem hiatos, sem direito a reflexão, como saberemos quem somos? Como vamos crescer? Como reconheceremos as expressões faciais de nossos amigos, funcionários e chefes se só no relacionarmos com eles pela internet? Como saberemos o que pensam, se eles se esconderem, por medo de suas fragilidades, atrás dos textos e e-mails? Como lidaremos com o choro, a angústia, a depressão do outro, se não dermos espaço para reconhecermos estes sentimentos em nós mesmos?

Crianças aprendem a conversar a partir das conversas de seus pais, de sua família em convívio social. Se isso for desaparecendo, como vamos ensiná-las a se exprimirem? Não será, certamente, fazendo-as se distraírem com o celular ou o tablete ao menor indício de frustração. Não será nos filmes e videogames que eles encontrarão seu caminho.  Se vamos ficando mais intolerantes em relação a ouvir dos nossos amigos suas dificuldades, dúvidas e problemas, como estimular a capacidade de ter compaixão, empatia, pena?

Como vemos, muitos sentimentos e comportamentos estão em jogo. Já parou para pensar  nisso, assim, sozinho, sem o smartphone conectado, ali do lado? Você faz alguma pausa para pensar nesse frenesi da vida online? Carlos Drumond de Andrade sabia bem que a vida necessita de pausas, antes mesmo do ritmo frenético dos tempos de hoje.

Related Posts with Thumbnails

Deixe Seu Comentário