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Se você tem mais de 40 anos, já deve ter percebido que estamos vivendo um paradoxo sem precedentes: a sociedade atual cultiva valores completamente opostos aos que você conheceu quando era criança.  E se é mais jovem que isso, certamente se ligou que é protagonista desse momento.

De acordo com o filósofo francês Gilles Lipovietsky, estamos na era da hipermodernidade, que se caracteriza pelo nosso consumismo exagerado. Comparado a nossos avós e bisavós, acumulamos muito mais cacarecos: roupas, sapatos, acessórios e até comida! Será que a necessidade deles era menor? Não tinham dinheiro suficiente para comprar o que nós compramos? A tecnologia não era tão avançada, por isso possuíam menos coisas? Nenhuma das alternativas está completamente correta.

Segundo o estudioso, a explicação está na mudança de padrões de comportamento. Sem as normas tradicionalistas, a sociedade vem se dividindo em extremos e criando comportamentos paradoxais na busca compulsiva pelo prazer. Por isso, acumulamos coisas. E não se trata somente de objetos; o excesso está principalmente em nossos hábitos cotidianos.

Repare que, de uns tempos para cá já não comemos de forma saudável, coletiva, não temos tempo de preparar nossas refeições, como nossos antepassados. Cultivamos o lema do “coma o que quiser”, na hora em que der. Como o momento é de abundância de alimentos, os industrializados principalmente, acabamos criando uma escala que vai de obesos a anoréxicos, a partir de uma lógica pessoal e emotiva.

A hipermodernidade se caracteriza também pela ausência de um discurso ideológico razoável (tudo é uma catástrofe, nada parece ter solução) e pela desintegração social que, ao mesmo tempo em que possibilita o prazer sem limites e motiva a agressividade excessiva, se vê ávida por ordem e moderação.

Além disso, as instituições já não são as mesmas que nos tempos idos.  Como resultado, temos maior incidência de crimes hediondos, aparentemente por motivos torpes. As regras e valores ficaram mais tênues e, por consequência, temos mais medo da desordem, de assaltos e de morrer pela violência. Me faz lembrar dessa musica de Gilberto Gil, na qual ele fala da possibilidade de morrer de morte “matada”:

“então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.”

Isso se reflete no comportamento da sociedade, de maneira geral. Evitamos sair de casa à noite, tememos expor nossos objetos de valor ou sermos assaltados no trânsito. E o medo é generalizado, independente de classe social. Quem utiliza transporte público teme a violência, seja ela um incêndio criminoso, um estupro, um roubo, uma agressão. Nos questionamos se a “liberdade” conquistada não foi responsável pela atual situação, já que trouxe com ela uma clara ausência de limites. Como demonstra essa música, do Mc Guime, que exprime  a notória ausência de medo que desafia as autoridades:

 “Acelera forte, os malote no tanque e o fuzil na garupa
Pilota com uma mão e atira com a outra
Especialista em fuga”

No campo profissional, também vivemos a sociedade do paradoxo. Falamos muito em engajar funcionários mas, no momento de crise, cortamos a folha de pagamento para reduzir custos ou lucrar mais. Empresas discursam sobre a defesa do meio ambiente, mas continuam descarregando material poluente na natureza. Queremos respeito às leis de trânsito, furiosos com os indivíduos bêbados ao volante, mas falamos ao celular enquanto dirigimos…

Quanto mais avançam as condutas responsáveis, mais aumenta a irresponsabilidade, nos isolando e transformando em “lutadores sem filosofia”, como descreveu Marcelo Yuka, em “Ego City”:

“Que nos prende ao consumo siliconizado
E farpado urgente que diz
Bem-vindo a Ego City
Lutadores sem filosofia
Crianças sem esquinas
Realidade da portaria
Mas só se for pela porta dos fundos
De frente pro mar
De costas pro mundo
Perderam o governo
Mas ainda seguram os trunfos”

 Barry Schwartz diz, em “O Paradoxo da Escolha” que a possibilidade de fazer escolhas nos deixa ainda mais angustiados.

E essa “nova sociedade” é angustiante porque já que não nos dá bases sólidas, nem limites. Fica a impressão que nada mais satisfaz o homem hipermoderno e, por isso, ele busca incansavelmente mais formas de ter alegria, satisfação e prazer. Quer seu cérebro inundado de dopamina o tempo todo e o comportamento da Geração Y exemplifica bem esse conceito.

Já disse em outros posts que esta geração, que vem se fundindo à Geração Gamer, será mais angustiada que as anteriores. Belchior falou bem desse sentimento em “Coração Selvagem”:

“O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo
Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho, algum punhal de amor traído, completara o meu destino.”

É justamente a ausência de normas sociais que gera nesses jovens confusão e questionamento. Eles se veem em meio a duvidas básicas, do tipo como se vestir para o trabalho e que perguntas podem ser feitas ao chefe, por exemplo.

Os jovens são a personificação da transição, já que são hipermodernos vivendo em um mundo ainda criado por modernos e pós-modernos!  Eles estranham a definição de normas, porque cresceram em um mundo sem regras sociais. Ao contrário, o mundo deles as extinguiu, na tentativa de poder ser mais autêntico, e em uma negação clara dos valores vigentes.

Angustiado, este jovem quer estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo – ainda que virtualmente. Tecla furiosamente seu smartphone enquanto janta com a família. Por não aceitar os momentos de tédio, consome antidepressivos, procurando compreender o mundo à sua volta. Têm medo, como na canção de Julieta Venegas e Lenine:

“Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá”

A culpa também é nossa, das gerações mais velhas. Fomos estimulados a educá-los de forma menos restritiva, acreditando que assim estaríamos estimulando suas potencialidades. Isso até pode ser verdade, porém, a tese virou antítese. O “não” considerado execrável, foi abolido e, finalmente, proibido. As crianças ganharam poder nas famílias e os pais se submeteram a elas, possivelmente acreditando que formariam personalidades fortes e mentes criativas.

Então, se a responsabilidade de ter criado esse novo momento é nossa, também nos pertence o dever de ajudar a sociedade em transição, reafirmando os valores que entendemos como adequados a uma sociedade organizada e mais harmônica. Seja nas organizações, em casa, nas escolas, nosso papel, mais do que nunca, é dar um norte a uma sociedade que parece estar se perdendo nos seus excessos.

Então, mãos à obra!

PS: No próximo post, vou falar sobre a diferença entre hipermodernidade e os momentos anteriores: modernidade e pós-modernidade.

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