Feed on
Posts
Comments

Foi sancionada na semana passada a “Lei Menino Bernardo”, que  proíbe o uso de castigos físicos e de tratamento cruel ou degradante como formas de correção, disciplina e educação de crianças e adolescentes. Conhecida também como “Lei da Palmada”, ela determina que pais, demais integrantes da família, responsáveis e agentes públicos executores de medidas socioeducativas que descumprirem a norma vão receber encaminhamento para um programa oficial ou comunitário de proteção à família, tratamento psicológico ou psiquiátrico e advertência.

Acho importante esclarecer, em primeiro lugar, que a lei não tem por objetivo tirar a autoridade dos pais. Estamos vivendo uma época de revisão de valores, na qual muito ja se falou sobre as consequências da baixa autoestima na vida de uma criança. Sabemos que seu equilíbrio emocional ficará seriamente comprometido, acarretando provavelmente depressão, ansiedade, busca constante de aprovação, medo, sentimento de inferioridade e outras dificuldades na vida adulta.

Da mesma maneira, expor uma criança à humilhação ou a castigos emocionais pode produzir danos tão ou mais importantes (a ridicularização, inclusive). Então, acho importante frisar que uma lei dessa não tem nada a ver com autoridade parental: uma criança precisa e precisará sempre de limites. Ela precisa desesperadamente saber que não lhe é permitido fazer qualquer coisa, com referências claras mundo externo – isso é permitido mas, aquilo, não é. A criança com limites se sente, inclusive, mais amada e mais segura, dizem os especialistas. Isso ja é motivo suficiente para nos darmos conta que precisamos dar normas claras aos nossos filhos. Mas ha uma maneira de fazê-lo. Dizer “é hora de ir pro banho” ou “você precisa recolher seus brinquedos depois de usar” é mais claro do que dizer: “comporte-se!”, por exemplo. As crianças têm mais dificuldades de entender conceitos abstratos.

Muitos pais, no entanto, querem ser modelo e se comportam como amigos de seus filhos, evitando chamar a atenção ou negar-lhes algum pedido. Por conta do cotidiano corrido que nos rouba parte da convivência com nossos filhos,  tentamos proporcionar a eles um convívio agradável, embora curto. E, cá entre nós: preferimos os bons momentos porque ficar dando bronca é muito chato.

Eu digo que fui da última geração na qual lutávamos pelo amor de nossos pais. Era uma época em que eles tinham vários filhos (o que é raro, hoje, quando as familias têm, em média, dois filhos) e brigávamos com nossos irmãos disputando a atenção e o carinho dos pais. Hoje, parece as coisas se inverteram e somos nos, pais e mães, que lutamos pelo amor de nossos filhos. Temos aquela sensação de que se não fizermos tudo o que eles querem, se não comprarmos tudo o que eles pedem, eles não nos amarão.

No fundo, sabemos: nossos filhos vão nos respeitar mais e se transformarão em adultos mais equilibrados se dermos orientações claras e se impusermos os limites adequados a eles. Conheço vários adolescentes que dizem que gostariam que seus pais o tivessem feito com mais firmeza no momento devido, ou seja, sua infância. Quando adultos, terão uma melhor noção de como se comportar no mundo cotidiano, se tiverem anteriormente uma experiência saudável com limites. O mundo externo será claramente um ambiente no qual ele vai precisar controlar suas emoções, não poderá fazer o que quiser e terá suas expectativas frustradas. Cabe a nós, como primeira referência dos nossos filhos, demarcar fronteiras claras e lógicas. Só sair gritando ou batendo não ajuda a criança entender porque está agindo errado.

Mas eu acredito que só sancionar a lei proibindo bater nas crianças também não é suficiente para explicar aos pais, educadores e todos os cuidadores de crianças, que o limite continua sendo função parental, e que não é possível transferir esse trabalho para a escola ou empregados. A sociedade também precisam entender que a aplicação de castigos e humilhações não darão aos nossos filhos a noção de limite, funcionando, em alguns casos, como potencializadores das suas dificuldades. Precisamos todos de orientação no processo de educar crianças para se tornarem adultos maduros e integrados em uma sociedade.

Se tomarmos o caminho inverso – e, muitas vezes, mais fácil – as crianças crescerão sem saber as normas vigentes e podem desperdiçar talentos fantásticos por inadequação ao comportamento  exigido dentro de cada contexto. Nós, que ja estamos crescidos, sabemos a importancia disso: não se adequar a certas regras sociais é algo passível de punição, com vexame muito maior e consequências muito mais graves do que uma bronca ou bom “não” na hora certa.

 

Related Posts with Thumbnails

Deixe Seu Comentário